O que se espera do livro em sala de aula?
- Larissa S. Cordeiro
- 3 de jun. de 2024
- 3 min de leitura
A leitura literária como experiência estética no contexto escolar transcende as fronteiras do mero ato de decifrar palavras em páginas. Ela, a leitura, se transforma em um mergulho profundo no universo das sensações, das reflexões e das emoções, proporcionando um encontro íntimo entre o leitor e a obra. Nesse cenário, a sala de aula pode se tornar o palco privilegiado onde se desenrola esse espetáculo de significados e interpretações.

Nessa direção, Carranza (s.a.) ao utilizar a imagem do rinoceronte na sala de aula, provoca a reflexão sobre a presença da arte e da literatura em sala de aula, diferente do modo como espera-se que a leitura protagonize no palco da sala de aula, de acordo com a autora “[...] a literatura, como arte, parece perder sua natureza de bicho majestoso, estranho, selvagem, quando entra na escola[...]”. É a partir dessa indagação da autora que observo a realidade cotidiana escolar enquanto professora, e percebo que muito do que se reproduz no senso comum sobre a experiência literária na sala de aula está mais associada a uma falsa compreensão do objeto livro em sala, do entendimento da sua linguagem e da mediação enquanto professor, do que uma ausência de interesse por parte das crianças em sala de aula.
Na dinâmica da sala de aula contemporânea, o livro muitas vezes é encarado como um objeto utilitário, vestígios de uma educação tradicional que muitas vezes acaba condicionando os estudantes a memorizarem fatos e respostas prontas, em vez de serem incentivados a explorar as complexidades das narrativas, os dilemas éticos dos personagens e as nuances das ideias apresentadas, essa visão reducionista por um lado, acaba minando o experenciar e o vivenciar do objeto literário, que forma leitores e desenvolve as potencialidades dos estudantes. E por outro lado, ainda empobrece o papel do livro na sala de aula.
A autora Maria Teresa Andruetto (2013) em seu texto Por uma literatura sem adjetivos, ao dizer da função da ficção que:
"[...]Vamos à ficção para tentar compreender, para conhecer algo acerca de nossas contradições, nossas misérias e grandezas, ou seja, acerca do mais profundamente humano. É por essa razão, creio eu, que a narrativa de ficção continua existindo como produto da cultura, porque vem para nos dizer sobre nós de um modo que as ciências ou estatísticas ainda não podem fazer [...]” (Andruetto,2013, p.54)
A autora enfatiza a capacidade única da ficção de nos ajudar a entender a complexidade da experiência humana. Ao mergulhar na ficção, somos convidados a explorar as nuances de nossas próprias contradições, bem como as vastas gamas de emoções que constituem nossa existência, assim, quando a literatura entra na sala de aula na sala com objetivo utilitarista, ela perde sua essência e combater esse fim, cabe ao professor que “[...] deve tratar a leitura literária dos alunos, como a tratamos na vida, avaliando as ações que os alunos estabelecem quando leem, ou seja, considerando comportamentos leitores” ( Carvalho e Barouk, p.22, 2018).
O professor que deve ser um leitor literário desempenha um papel fundamental no cultivo da formação de leitores, no desenvolvimento das habilidades de leitura crítica e analítica, na promoção da empatia e compreensão, e no estímulo à criatividade e imaginação dos alunos, ele promove e experiência da leitura literária e apreciação do livro. O professor é o responsável por tornar a sala de aula, o palco privilegiado da literatura.
Portanto, devemos esperar que na sala seja o livro a matriz da experiência estética do ler e do apreciar o objeto livro como arte. Idealmente, espera-se que o livro seja mais do que um mero objeto avaliativo ou utilitário; ele deve ser uma fonte de inspiração, conhecimento, exploração, curiosidade. Ao cultivar uma relação enriquecedora com os livros, os alunos podem desenvolver habilidades essenciais de pensamento crítico, comunicação e criatividade, capacitando-os a se tornarem sujeitos que compreendem a si mesmos e com isso, provocam transformação.
Referências
ANDRUETTO, María Teresa. Por uma literatura sem adjetivos. São Paulo: Editora Pulo do gato, 2018.
CARRANZA, Marcela. O rinoceronte na sala de aula. Sem local de publicação: (s.d.), (s.a.)
CARVALHO, Ana Carolina e BAROUKH, Josca Ailine. Ler antes de saber: oito mitos escolares sobre a leitura literária. São Paulo: Panda Books, 2018.
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